Pensei se deveria escrever ou não neste dia, tentei fugir, mas aqui estou, apenas Vera, a falar sobre perda gestacional…
Antes de ser mãe de forma efetiva ou de ter um teste positivo, vi muitas pessoas a viver e a sonhar com o dia do seu positivo. Positivo no teste, no batimento cardíaco, do rastreio, da ecografia, da auscultação, do parto, do internamento ou tantos outros tormentos que as mães e pais vivem desde o primeiro dia.
O primeiro dia varia para cada um, tal como a emoção que cada um sente na pele.
Não engravidei logo na data X como esperava e achava que controlava, vivi algumas vezes a menstruação como perda. Depois do positivo, tinha tanto medo de abortar e da possível dor que causaria aos mais próximos que guardei a notícia até ter mais certezas de que tudo ia correr bem.
Tive sustos e chorei algumas vezes, tantas! Sabia, em cada etapa, as estatísticas e as possibilidades, e sabia que muitas vezes há pouco a fazer. Fui a cada gota de sangue à urgência, como muitas mulheres que vivem a necessidade da certeza, tentar ver o coração a bater e assim prosseguir no sonho ou desabar no choro da ausência.
Não questiono a importância da vigilância da gravidez. Mas hoje falo da angústia que a mesma também pode oferecer, o risco parece sempre estar presente, quando só queremos que tudo corra bem, todos merecem isto: “Que corra bem!”
Mas nem sempre corre, sem porquês ou culpados, podemos ficar sós.
No parto, o receio prosseguiu igual, só queria que nascessem bem, a estratégia passou pelo controlo do contexto para conseguir desligar e seguir só Vera, que sonhava apenas com um encontro sonoro, de saúde plena com um Índice de APGAR igual ou acima de 9, sem risco algum de separação.
Eles nascem e o coração continua a crescer em amor e receio.
Um abraço especial, a todos com quem vivi o silêncio desta dor.
Não fugi, mas limito a partilha de alguma forma. Este dia é especial para mim, não por ter sido protagonista neste âmbito, mas por respeitar muito a dor de quem já viveu o que sempre temi no meu caminho de parentalidade. Não têm de temer o caminho, esta é uma partilha em nome pessoal sobre perda gestacional e neonatal.
